Palavra de Deus

23.03.2010

  4º Domingo da Páscoa - Ano C


 


    1ª leitura: At 13,14.43-52: Após a experiência de Pentecostes, o Evangelho faz seu caminho até os “confins da terra” (At 1,8) através da pregação e testemunho das comunidades e seus enviados. Paulo e Barnabé, no primeiro momento, se dirigem aos judeus da diáspora. Diante da rejeição sofrida, eles partem para pregar o Evangelho aos pagãos. A pregação do Evangelho rompe fronteiras geográficas, de credo e raça, chegando a todos aqueles que possuem coração sincero e aberto.

    2ª leitura: Ap 7,9.14b-17: Mesmo em meio ao cenário catastrófico narrado no Apocalipse, surge uma multidão vinda de todos os povos guiada pelo Cordeiro. Simbolizam a vitória do povo de Deus contra as forças maléficas presentes no mundo. Eles vêm da tribulação, perseguidos por causa de sua fé; se fazem solidários ao Cordeiro. Os mártires são a primícia do louvor universal ao Cordeiro.

    Evangelho: Jo 10, 27-30: Este trecho encerra o discurso sobre o Bom Pastor em Jo 10. O Bom Pastor é aquele que, dando sua vida pelas ovelhas, lhes comunica a vida eterna, que não pode lhes ser tirada. A fonte desta força é sua unidade com o Pai. Aquele que acolhe a vida dada pelo Bom Pastor, entra nesta unidade.

    Breve Reflexão: Aos ouvidos pouco acostumados ao estilo do Apocalipse, esta situação pode parecer contraditória: um Cordeiro que conduz a multidão, ou seja, um Cordeiro que ao mesmo tempo é Pastor. Contudo, se estivermos atentos às passagens anteriores, veremos que a imagem do Cordeiro está em profunda ligação com a solidariedade, com o rebanho na entrega de vida. Aqui, esta ideia se repete: aqueles que vêm da tribulação, do martírio, estabelecem uma relação de solidariedade com o Cordeiro. Esta relação lava-os, tornando-os imaculados como ele. Ao passo que o Cordeiro os conduz para a fonte verdadeira das águas: Deus.

    No Evangelho, paradoxo semelhante se estabelece. Nas primeiras partes do cap. 10 de João, o Bom Pastor dá a vida em plenitude (10,10) e entrega a sua vida pelas ovelhas (10,11-18). Ao dar (entregar) sua vida, ele que é a encarnação do Amor-Fidelidade de Deus, dá (comunica) por sua vida a vida eterna aos seus. Nesta parte final do discurso, somos apresentados à fonte desta vida que nos é comunicada pelo Bom Pastor, ou seja, a unidade na qual ele vive com o Pai. Nesta solidariedade com o Filho, nós participamos desta unidade com o Pai.

    Assim, somos convidados através das leituras de hoje a viver o seguimento do Cordeiro/Bom Pastor, solidários com ele, na vida e na morte. A deixar a vida ser guiada por este verdadeiro Pastor, que dá sua vida por nós, suas ovelhas. Em que consiste esta “condução”?: “Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz e me siga... Quem perder sua vida, há de realizá-la... Onde eu estiver, ali estará também meu servo...” (Jo 12,23ss.; Mc 8,34ss.). Deixar-se conduzir pelo Bom Pastor é deixar que a nossa vida transcorra e transpareça a Vida daquele que deu a própria vida pela humanidade, não apenas em sua glória, mas também onde a cruz da doação de vida é necessária. Nossas vidas, na Vida do Cordeiro, estão nas mãos amorosas de Deus.

    Encerrando nossa reflexão, partilho com vocês minha preocupação com uma imagem de Deus muito “vendida” nos dias de hoje. Trata-se de um “deus ‘resolvedor’ de problemas”, que gera uma religiosidade descompromissada com as cruzes do mundo. Um deus individual, “ferramenta” dos desejos, sem compromissos além dos que envolvem o saciar vazios do indivíduo. A relação que se estabelece não é a da solidariedade que tanto vimos nestes textos. Definitivamente, um “deus” que nos afasta da comunhão e do compromisso fraterno, fechando-nos nas preocupações do próprio umbigo, não é o Deus de Jesus. 

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Autor: Pe. Maikel Dalbem - dalbemcssr@gmail.com

 

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