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Espiritualidade Redentorista
A BENÇÃO DA CARNE
Quando me propus neste ano que o fio condutor de nossas reflexões, aqui neste cantinho, seria a Vida, não sabia ao certo aonde esta Vida nos levaria. Agora, fechando o mês, me dou conta que a escolha nos permitiu, juntos, espero, afirmar que a Vida é o lugar da experiência de Deus. A vida, por sua concreteza e seus relacionamentos, bem como na acolhida de tantos acontecimentos, é o desafio de quem deseja viver espiritualmente; realizar sua jornada à la Redentorista.
Partilhamos a cada mês o desejo de encontrar na vida os caminhos para Deus e os caminhos de deus conosco. O cotidiano de encontros nos transportou a Deus. Assim, pois, o cotidiano é mesmo a alavanca boa, poderosa, pois ele nos carrega até à mística, rumo ao Divino, revelando-se no agora de nossa vida em feitura. Não é tanto uma questão de repetir palavras ou fórmulas, insistir em atos ditos religiosos para deixar Deus chegar aonde estamos e ir nos levando consigo. O bom da cotidianeidade é que, sob o Sopro do Espírito, nos impede de sermos obcecados com rituais por eles mesmos, só. Conta, no cotidiano, as surpresas da vida, ainda que minúsculas (como se a gente visse o Invisível!), o desejo constante de manter-se discípulo, disposto a vivenciar a compaixão de Deus pela realidade humana; donde a redenção em favor de vida abundante. O caminho, pois, a seguir é cuidar dos sinais, símbolos, metáforas que nos dão acesso à direção de mais ser junto Dele.
Então, nestas conclusivas considerações de agora, pensem, meditem e rezem sobre “A bênção da carne”.
A vida como dom e tarefa
A vida é dom. Começado o dom da vida, inicia-se a tarefa de torná-la vida humanizada. Tarefa de cada indivíduo. Vida humanizada é viver liberto de servidões e livre para ser amorável e amorizante. O cuidado com o nosso ser e existir é tarefa de quem se dispõe, com alegria, a levar uma vida aprendendo. Sujeito aprendente. E quem inclui Deus nas suas relações substanciais não só é aprendente, mas torna-se também discípulo. Um discipulado (= seguir Jesus) que perdura a vida inteira e em todos os caminhos. É o percurso de qualquer espiritualidade.
Construir a verdade do próprio ser
Viver é construir a verdade do próprio ser e expô-la pelo estilo de vida que se leva. Construir a própria verdade é obra de quem não cessa de aspirar e investir no “mais ser”. Difícil tarefa nas atuais circunstâncias, quando se privilegia o ter e o parecer. A vida como espetáculo.
Nascidos, a vida nos chama (e, em certas horas, nos compele) à escolha de dar à luz a nós próprios, encontrando caminhos de sabedoria ou mergulhando nos atalhos da morte. Escolhe a bênção ou a maldição. (Está no texto bíblico).
Crescer com e pela própria verdade de ser é o oposto de viver como uma mentira existencial. Coisa de fazer da vida um teatro e viver como um personagem. Crescer e maturar em liberdade requer generosidade. A obra de se construir se edifica sobre o chão dadivoso de aprendiz e discípulo. Os antigos Padres da Igreja diziam ser necessária a prática da virtude (poder de vida) da docilidade, este gosto gostoso de aprender e aceitar ser ensinado. E ousar, a seguir, ensaios de auto-realização, face ao outro que me interpela, face aos acontecimentos que me desafiam, face a Deus que me chama (- Sobe mais no Amor!) e que me envia em missão: - Vai, e conta aos teus irmãos quem Eu sou.
Toda vida bem vivida é generosa. Esclarecedora é aquela fala de Jesus dizendo que o Pai é qual agricultor zeloso que cuida da vinha, limpa a cepa, corta os ramos secos, faz a poda para que haja frutos, muitos e bons.
Redimir nossa corporeidade
Numa perspectiva de redenção copiosa, cabe-nos redimir a força de nossa presença na realidade: redimir nossa corporeidade. Por isso, nada de banalizar a carne, matar a carne, torturar a carne, queimar a carne humana.
Carne. Corpo. Corporeidade. Somos isso; somos por isso os sentidos do mundo. O universo se percebe em nós. A carne do universo em nossa carne. A dor do universo em nossa carne. A alegria de cada um de nós por existir na carne como benção para o universo. A via que nos santifica devolve-nos às bênçãos da carne. Você crê nesta dimensão da realidade?
Ao dizer carne, digo também sexualidade. Somos e temos um corpo sexuado, sexual, sensual. A corporeidade sente, escuta, fala, cheira, toca, enxerga, pensa. E, juntando todas estas parcelas, amamos a vida, amamos os outros. Amamos Deus. É indispensável ter no coração essa certeza de fé e esperança: há mais bondade e bênçãos no mundo que tudo mais; mais que pecados, violência, maldição. A bênção da vida existe desde a criação. A bênção redentora do viver nos alcança com a ressurreição de Jesus de Nazaré, nascido de mulher.
Uma pausa para perguntas:
- Você se dá conta do poder que a sua sensualidade (=sentidos em movimento com os afetos) tem sobre sua vida?
- Você é sujeito de sua sensualidade?
- Você é bênção para o mundo das realidades e pessoas que o rodeiam?Você conhece a bênção de Deus que é sua carne de homem, de mulher? A bênção está em você.
Carne
A “carne” é uma palavra bíblica de variadas dimensões. Faz parte da revelação do que é o ser humano, visto por Deus criador e redentor. Carne é palavra ferida no decorrer da história do cristianismo. (Bento XVI fala sobre estas coisas em sua encíclica: Deus é amor.)
Carne: do corpo à corporeidade; do corpo sexuado à sexualidade. Carne é, deveras, nosso texto, a mensagem nossa escrita pela presença junto ao universo, aos outros; junto a Deus. O corpo que reza! Corporeidade é aqui a expressão mais clara (e exata) do que quero dizer com a palavra carne: o eu corpóreo-espiritual. A unidade do que se habituou nomear com os termos de “corpo e alma”.
Corporeidade redimida. Corporeidade santificada. Amar não é, afinal, viver no espaço do outro e admitir que o outro viva em nosso próprio espaço?
Transitoriedade e riscos
Sim, a carne é transitória. Passa a figura deste mundo quando nossa carne retorna ao húmus da terra. Mas o sujeito não morre. O Verbo de Deus se fez carne para que toda carne se faça Palavra divina na história e viva para sempre, ressuscitada.
A vida de cada um de nós é uma história de vida na carne: nossa corporeidade na terra; nossa carne ressuscitada, na esfera de Deus.
É verdade que a corporeidade humana corre enormes riscos nas atuais condições brasileiras. Os riscos vão desde o desemprego às balas perdidas; intensificam-se com a subida da violência no coração de cada um e a banalização do mal. Há gente demais dando morada ao medo e vivendo sob ameaças internas, que explodem ao mínimo aceno, sempre interpretado como provocação, invasão intolerável.
Bom mesmo é meditar sobre nossa vida como Mistério de Deus. Somos em nossa corporeidade expressão do Mistério, parte do Mistério. Não somos nem enigma, nem problemas. Em nossa história de vida há, sim, enigmas e códigos a decifrar; problemas a solucionar. Mas somos é Mistério. E o lugar deste mistério se explicitar é em nossa história de vida. Daí que o melhor é resignificar nossos caminhos já andados, tendo do percurso uma viva e agradecida memória.
Bom mesmo, então, é viver reconciliado. E lembrando-nos, dia após dia, o outro Mistério, o da encarnação (na carne!) do Verbo, Jesus de Nazaré, nascido de mulher; o enviado do Pai como sua Palavra libertadora.
Santificar a carne
Recuperar a santidade e a bênção que é a carne. Carne incluída em nossa prática espiritual. Uma espiritualidade que nos liberta, cura, salva, e nos aproxima fraternalmente dos demais.
E fica posta a pergunta conclusiva: quais de suas palavras se fizeram carne na vida dos outros? São coisas do encanto, do apreço, do recomeço, do perdão, do estímulo e apoio. Quando a esperança retoma o seu lugar é sinal de que a palavra dada se fez carne, se fez benção. O que não é falado, o não-dito, é mal-dito, maldição.
Pe. Dalton Barros de Almeida, C.Ss.R.
Belo Horizonte, MG